Cirurgia Refrativa

LASIK vs PRK: Comparação Detalhada entre as Principais Técnicas de Cirurgia Refrativa a Laser

Fevereiro de 2026
10 min de leitura
Cirurgia refrativa a laser

A cirurgia refrativa a laser corrige erros de refração — miopia, hipermetropia e astigmatismo — remodelando a córnea para que a luz focalize corretamente na retina. As duas técnicas mais consolidadas são o LASIK e o PRK, ambas com décadas de evidência científica e resultados comprovados.

A pergunta "qual é melhor?" não tem uma resposta única. A escolha depende de características anatômicas do olho, perfil do paciente e condições específicas da córnea. Este artigo explica as diferenças com clareza para que você possa compreender a orientação do seu oftalmologista.

Como funciona cada técnica

LASIK (Laser-Assisted In Situ Keratomileusis)

No LASIK, o cirurgião cria um retalho fino (flap) na superfície da córnea, geralmente com o auxílio de um laser de femtossegundo. Esse flap é levantado, o excimer laser remodela o tecido corneano subjacente (estroma) e o flap é reposicionado. A córnea adere naturalmente, sem necessidade de pontos.

Vantagem principal: recuperação visual rápida. A maioria dos pacientes atinge boa acuidade visual em 24 horas e retorna às atividades em 2 a 3 dias.

PRK (Photorefractive Keratectomy)

No PRK, o excimer laser é aplicado diretamente na superfície da córnea, após a remoção do epitélio (camada mais externa). Não há criação de flap. Ao final, uma lente de contato terapêutica é colocada para proteger a córnea durante a regeneração epitelial.

Vantagem principal: preserva maior espessura corneana residual e elimina riscos associados ao flap. É a técnica preferida para córneas mais finas ou pacientes expostos a impactos físicos (militares, lutadores, atletas de contato).

Comparação direta

CritérioLASIKPRK
Recuperação visual24-48 horas5-7 dias
Desconforto pós-opMínimoModerado (2-4 dias)
Preservação corneanaMenorMaior
Risco de ectasiaLigeiramente maiorMenor
Resultado finalEquivalentes a médio/longo prazo

Recuperação visual: no LASIK, a melhora é percebida já no primeiro dia. No PRK, a recuperação é gradativa e pode levar de 5 a 7 dias para estabilização funcional, e até 1 a 3 meses para a visão final.

Desconforto pós-operatório: o PRK causa mais desconforto nos primeiros 2 a 4 dias (sensação de areia, lacrimejamento, fotofobia). O LASIK é tipicamente mais confortável desde o primeiro dia.

Resultado final: quando bem indicadas, ambas as técnicas apresentam resultados refrativos equivalentes a médio e longo prazo. Estudos publicados no Journal of Cataract & Refractive Surgery mostram taxas de satisfação superiores a 95% para ambos os procedimentos.

Segurança corneana: o PRK preserva mais tecido corneano por não criar flap. Isso é clinicamente relevante em córneas com paquimetria limítrofe (espessura inferior a 500 μm) ou com sinais topográficos sugestivos de fraqueza estrutural.

Quem pode fazer cirurgia refrativa?

A avaliação pré-operatória é a etapa mais importante de todo o processo. Não se trata apenas de medir o grau: é necessário avaliar a saúde corneana em múltiplas dimensões.

Critérios gerais de elegibilidade

  • Idade mínima de 18 anos (idealmente acima de 21 anos)
  • Grau estável por pelo menos 12 meses
  • Ausência de doenças oculares ativas (ceratocone, glaucoma descontrolado, doenças da superfície ocular graves)
  • Ausência de gravidez ou amamentação (alterações hormonais podem modificar a refração)
  • Espessura corneana adequada para a correção pretendida

Quem não é candidato

Pacientes com ceratocone não podem ser submetidos a cirurgia refrativa convencional, pois a córnea já apresenta fraqueza estrutural. Nesses casos, outras estratégias são discutidas (crosslinking, anéis intracorneanos, lentes fácicas).

Olho seco grave não tratado, doenças autoimunes que afetam a cicatrização e expectativas irrealistas também são contraindicações relativas ou absolutas.

Riscos e complicações

A cirurgia refrativa é segura, mas nenhum procedimento cirúrgico é isento de riscos. A transparência sobre complicações possíveis é obrigação ética prevista na Resolução CFM 2.336/2023 e parte do princípio de consentimento informado.

Olho seco: sintoma mais frequente no pós-operatório, especialmente no LASIK. Na maioria dos casos, é transitório (3 a 6 meses). Em uma minoria, pode persistir por mais tempo.

Halos e glare: percepção de halos ao redor de luzes, mais frequente à noite. Mais comum em pacientes com pupilas grandes operados com zonas ópticas estreitas. Tende a melhorar com o tempo.

Sub ou hipercorreção: o resultado refrativo pode não atingir exatamente o alvo planejado. Em alguns casos, um retoque (enhancement) pode ser necessário após 3 a 6 meses.

Ectasia corneana pós-LASIK: complicação rara (incidência < 0,1%), mas grave. Ocorre quando a córnea residual é insuficiente para manter sua estrutura. É a principal razão pela qual a avaliação topográfica e tomográfica pré-operatória é inegociável.

Haze corneano (PRK): cicatrização excessiva da córnea. Mais frequente em correções altas. O uso de Mitomicina C intraoperatória reduziu significativamente essa ocorrência.

Minha abordagem clínica

Nos mais de 20 anos de prática em cirurgia refrativa, aprendi que o sucesso do procedimento começa muito antes do laser. Ele começa na avaliação pré-operatória minuciosa, na seleção criteriosa dos pacientes e no alinhamento honesto de expectativas.

Utilizo topografia e tomografia de córnea (Pentacam), aberrometria, avaliação da superfície ocular e análise de wavefront para definir a melhor estratégia para cada paciente. Quando a melhor decisão é não operar, esse é o conselho que dou.

Conclusão

LASIK e PRK são técnicas seguras, eficazes e complementares. A "melhor" técnica é aquela que se adequa ao seu olho, ao seu perfil e às suas expectativas. A escolha deve ser guiada por dados clínicos objetivos, não por modismo ou marketing.

Se você tem interesse em cirurgia refrativa, o primeiro passo é uma avaliação completa. A partir dela, podemos discutir juntos qual caminho faz sentido para você.

Referências

  1. Sakimoto T, Rosenblatt MI, Azar DT. Laser eye surgery for refractive errors. Lancet. 2006;367(9520):1432-1447.
  2. Randleman JB, et al. Risk assessment for ectasia after corneal refractive surgery. Ophthalmology. 2008;115(1):37-50.
  3. Cochrane Database of Systematic Reviews. LASIK vs PRK for myopia. 2022.
  4. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.336/2023.

Sobre o autor

Dr. Augusto Legnani Neto — Oftalmologista (CRM-PR 18.987 | RQE 14.692). Especialista em cirurgia de catarata, cirurgia refrativa e neuro-oftalmologia. Fundador do OFTA VITTA Hospital Oftalmológico e do Instituto OFTA (Umuarama, PR). Professor do curso de Medicina da UNIPAR. Preceptor de residência médica em Oftalmologia.

Este artigo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui a avaliação clínica individualizada. Agende sua consulta para uma orientação personalizada.

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