Durante anos, um paciente do noroeste do Paraná com indicação de transplante de córnea tinha um único caminho: percorrer 262 quilômetros até Londrina, aguardar na fila de um centro de referência distante, e organizar toda a logística de deslocamento, acompanhante e recuperação longe de casa.
Isso mudou em fevereiro de 2026.
O Instituto OFTA VITTA recebeu habilitação junto ao Sistema Único de Saúde para realizar transplantes de córnea em Umuarama — tornando-se o primeiro serviço da região noroeste do Paraná credenciado para este procedimento pelo SUS. A conquista representa acesso a um tratamento que pode restaurar a visão de pacientes com doenças corneanas graves, sem que eles precisem sair da região para recebê-lo.
A habilitação não foi apenas burocrática. Exigiu adequação estrutural do serviço, treinamento de equipe, investimento em equipamentos e aprovação pela Secretaria de Estado da Saúde do Paraná — um processo longo e criterioso.
O que é o transplante de córnea e quando é indicado
A córnea é a estrutura transparente que recobre a parte frontal do olho. Ela é responsável por aproximadamente dois terços do poder de focalização do sistema óptico ocular. Quando perde sua transparência, regularidade ou integridade estrutural, a visão é comprometida de forma que nenhuma lente — óculos ou lente de contato — consegue compensar adequadamente.
O transplante de córnea — tecnicamente denominado ceratoplastia — substitui o tecido corneano doente por tecido doado de um doador cadáver. É o transplante de órgão mais realizado no mundo e um dos mais bem-sucedidos em termos de resultado visual.
Principais indicações
- Ceratocone avançado: quando a deformidade corneana progrediu além do que crosslinking, anéis intraestromais e lentes especiais conseguem compensar. É a principal causa de transplante de córnea em adultos jovens no Brasil.
- Úlceras corneanas: lesões profundas causadas por infecções bacterianas, fúngicas, virais ou por amebas que resultam em cicatriz comprometendo o eixo visual central.
- Opacidades pós-traumáticas: cicatrizes corneanas resultantes de acidentes com corpo estranho, produtos químicos ou trauma ocular direto.
- Distrofias corneanas: doenças hereditárias que causam opacificação progressiva da córnea ao longo da vida.
- Falência endotelial: perda das células endoteliais da face posterior da córnea — que não se regeneram — levando a edema e opacidade corneana progressiva. Pode ocorrer como complicação de cirurgia de catarata ou como distrofia endotelial primária (Fuchs).
- Perfurações e emergências corneanas: o Instituto OFTA VITTA está habilitado também para atendimento de traumas oculares agudos que requeiram intervenção cirúrgica de urgência.
Transplante total ou parcial — a técnica depende da doença
O conceito de transplante de córnea evoluiu significativamente nas últimas duas décadas. Hoje não existe apenas a ceratoplastia penetrante total — há modalidades que substituem seletivamente as camadas comprometidas, preservando o tecido sadio do receptor.
Ceratoplastia Penetrante (CPP)
Substituição de espessura total da córnea. Indicada quando múltiplas camadas estão comprometidas — ceratocone avançado com cicatriz, opacidades estromais profundas, perfurações. Ainda é o padrão para casos complexos.
DALK
Transplante das camadas anteriores preservando o endotélio do receptor. Indicada principalmente em ceratocone sem cicatriz estromal e com endotélio saudável. Menor risco de rejeição.
DSAEK
Substituição seletiva do endotélio corneano. Indicada em falências endoteliais (distrofia de Fuchs, falência pós-cirúrgica). Recuperação visual mais rápida que o transplante penetrante.
DMEK
A modalidade mais refinada — transplanta uma camada de apenas 10 a 15 micrômetros de espessura. Resultado visual superior ao DSAEK em casos selecionados.
"A escolha da técnica cirúrgica é determinada pelo diagnóstico, pelo estado das diferentes camadas da córnea e pela experiência do cirurgião. Não existe uma técnica universalmente melhor — existe a técnica correta para cada caso."
Como funciona o procedimento na prática
O transplante de córnea é realizado sob anestesia local com sedação. O procedimento em si dura entre 45 minutos e 2 horas, dependendo da técnica utilizada. Não há necessidade de internação prolongada — o paciente recebe alta após a recuperação anestésica, geralmente no mesmo dia ou na manhã seguinte.
Pós-operatório
- Colírios corticosteroides e antibióticos por semanas a meses
- Restrição de atividades físicas de impacto nas primeiras semanas
- Consultas frequentes no primeiro ano — período de maior risco de rejeição
- Resultado visual final pode demorar 12 a 18 meses para estabilizar
- Astigmatismo pós-operatório é frequente e pode exigir correção adicional
Sinais de rejeição — atenção
A rejeição é a principal complicação tardia. Os sinais de alerta devem ser reconhecidos e comunicados imediatamente ao médico:
- → Olho vermelho súbito
- → Sensibilidade à luz
- → Visão turva ou embaçada
Tratada precocemente, a maioria dos episódios de rejeição é reversível.
A fila de espera e o que a habilitação regional muda
Atualmente, aproximadamente 30 mil pessoas aguardam transplante de córnea no Brasil. A fila média nacional é de cerca de um ano. No Paraná, o prazo médio é de quatro meses — um dos menores do país, reflexo da organização do sistema de transplantes estadual.
Antes da habilitação do Instituto OFTA VITTA, pacientes do noroeste do Paraná com indicação de transplante corneano eram encaminhados para Londrina. A distância, o custo de deslocamento, a necessidade de acompanhante e a dificuldade de acompanhamento pós-operatório a longa distância representavam barreiras reais de acesso — especialmente para pacientes do SUS.
O que muda com a habilitação regional
Pacientes de Umuarama e dos municípios da 12ª Regional de Saúde do Paraná — incluindo Cruzeiro d'Oeste, Altônia, Iporã, Douradina e região — podem agora ingressar na fila de transplante e realizar o procedimento localmente, sem deslocamento para centros distantes.
A habilitação cobre ainda o atendimento de traumas oculares agudos que requeiram intervenção cirúrgica de urgência — uma lacuna importante para uma região com volume significativo de acidentes rurais e industriais.
Doação de córneas: o que a maioria das pessoas não sabe
A córnea tem uma janela de captação de até seis horas após o óbito. A coleta é realizada pela equipe de transplantes após autorização familiar — independentemente de o falecido ter registrado formalmente a intenção de doação em vida.
Na prática brasileira, a decisão final é sempre da família. O registro de vontade do doador tem valor moral e facilita a conversa, mas não é juridicamente vinculante. Por isso, comunicar a intenção de doar aos familiares próximos é a ação mais eficaz que uma pessoa pode tomar.
Quem pode doar
Praticamente qualquer pessoa. As restrições são mínimas — doenças oncológicas sistêmicas com comprometimento ocular potencial são a principal contraindicação. Hipertensão, diabetes e doenças cardíacas não impedem a doação.
O que é retirado
O globo ocular completo — não apenas a córnea. A esclera também pode ser aproveitada em procedimentos de reconstrução. O procedimento é realizado com respeito e não altera a aparência do doador.
Como manifestar a vontade
Comunicar a decisão aos familiares próximos é o passo mais importante. Também é possível registrar na CNH digital ou em cartório.
"No Brasil, a taxa de recusa familiar ainda é o principal obstáculo à doação. Famílias que conhecem previamente a vontade do familiar têm taxa de consentimento significativamente maior. Conversar sobre doação de órgãos em vida é um ato de cuidado com quem ficará."
Ceratocone: quando o transplante é — e quando não é — a primeira opção
O ceratocone é a principal causa de transplante de córnea em adultos jovens no Brasil. Mas o transplante não é a primeira — nem a segunda, nem a terceira — linha de tratamento.
A progressão do ceratocone pode ser interrompida pelo crosslinking corneano, realizado quando a doença ainda está em fase ativa. A visão pode ser reabilitada com lentes de contato especiais — RGP, esclerais ou híbridas — mesmo em córneas moderadamente irregulares. Anéis intraestromais podem regularizar a curvatura e melhorar a qualidade óptica em casos selecionados.
O transplante é indicado quando essas opções se esgotam: ceratocone avançado com cicatriz estromal central, intolerância a todas as modalidades de lente especial, ou progressão que comprometeu a espessura corneana além dos limites de segurança para outros procedimentos.
A consequência clínica prática: quanto mais precoce o diagnóstico do ceratocone, maior a probabilidade de que o tratamento se limite a crosslinking e lentes especiais — sem necessidade de transplante. O acompanhamento regular com tomografia corneana serial é o que permite intervir no momento certo.
Leitura complementar
Para mais informações sobre ceratocone — diagnóstico precoce, estadiamento e opções de tratamento antes do transplante:
Avaliação e encaminhamento — como funciona no Instituto OFTA VITTA
A indicação de transplante de córnea é sempre precedida por avaliação completa que inclui tomografia corneana (Pentacam), microscopia especular do endotélio, OCT de segmento anterior e biomicroscopia detalhada. O objetivo é confirmar a indicação, estadiar a doença e definir a técnica cirúrgica mais adequada.
Pacientes com indicação de transplante via SUS são cadastrados na fila estadual após avaliação. O Instituto OFTA VITTA realiza todo o processo — da avaliação pré-operatória ao acompanhamento pós-operatório — localmente, em Umuarama.
Médicos de outras especialidades que identifiquem pacientes com suspeita de doença corneana grave podem realizar encaminhamento direto ao serviço de oftalmologia do OFTA VITTA para avaliação especializada.
Artigos relacionados — Cluster Córnea & Ceratocone
Cobertura na imprensa regional
A habilitação do Instituto OFTA VITTA para transplantes de córnea foi noticiada pelos principais veículos de comunicação do noroeste do Paraná:
Perguntas frequentes
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Instituto OFTA — sem fins lucrativos · Transplantes pelo SUS e particular
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