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Facoemulsificação em Cenários Difíceis

Catarata complicada — estratégias cirúrgicas para os casos que desafiam o protocolo padrão.

Catarata BrancaPXFMalyugin RingIFISCTRSubluxaçãoYamane

1. Catarata Branca — Capsulorrexe Segura

A catarata branca representa o maior desafio de capsulorrexe na facoemulsificação. O cortex liquefeito sob pressão positiva tende a propagar a rasga radialmente. O azul de tripan (Vision Blue 0,06%) cora a cápsula anterior e é o padrão de segurança.

Técnica — Catarata Branca com Azul de Tripan

1.Injetar viscoelástico coesivo (OVD) antes de abrir a câmara anterior — reduz pressão positiva do cristalino
2.Injetar azul de tripan 0,06% sob OVD por 30–60 segundos
3.Lavar com BSS e recolocar OVD
4.Iniciar capsulorrexe com agulha 27G ou pinça — movimentos curtos, centrípetos
5.Se a rasga propagar: parar, reposicionar OVD e redirecionar com pinça
6.Diâmetro alvo: 5,0–5,5 mm (cobrir borda da IOL)

Red Flag — Argentinian Flag Sign

Extensão radial bilateral da capsulorrexe ("bandeira argentina"). Parar imediatamente. Converter para ECCE se a rasga atingir o equador. Não tentar completar a capsulorrexe circular.

2. Pseudoesfoliação (PXF) e Fragilidade Zonular

A pseudoesfoliação é a causa mais comum de fragilidade zonular adquirida. Associa-se a glaucoma, midríase pobre e maior risco de complicações intraoperatórias. O cirurgião deve antecipar a necessidade de CTR (Capsular Tension Ring) em todos os casos de PXF.

Grau de FragilidadeSinaisDispositivo
LevePXF sem facodonese, zonular íntegro na biomicroscopiaCTR padrão (Morcher 14A)
ModeradoFacodonese leve, diálise <3 horasCTR + ganchos de íris (Mackool)
GraveDiálise >3 horas, subluxação >3 mmAnel de Cionni (suturado) ou Yamane

3. Pupila Pequena e IFIS

Pupila Pequena (<6 mm)

Causas: sinéquias posteriores, miose medicamentosa (pilocarpina), pseudoesfoliação, uveíte prévia. Manejo escalonado:

1.Viscodilatação com OVD coesivo (Healon GV)
2.Ganchos de íris (4 pontos) — mais versátil
3.Anel de Malyugin (6,25 ou 7,0 mm) — mais rápido
4.Esfincterotomias radiais (última opção)

IFIS (Intraoperative Floppy Iris Syndrome)

Associado ao uso de tamsulosina (Secotex, Urosin) e outros α1-bloqueadores. Tríade: estroma flácido, miose progressiva, prolapso de íris pelas incisões.

Prevenção

Suspender tamsulosina 2 semanas antes (controverso — pode não reverter)
Usar fenilefrina 1,5% + ketorolaco intracameral (Omidria)
Anel de Malyugin profilático em todos os casos de IFIS grau 2–3
Incisões menores (2,2 mm) reduzem prolapso de íris

4. Olho Vitrectomizado

Após vitrectomia posterior, a câmara anterior tende a aprofundar durante a facoemulsificação (ausência de tamponamento posterior). A pressão positiva do vítreo está ausente, o que facilita a capsulorrexe mas aumenta o risco de instabilidade da câmara.

Adaptações necessárias

Usar OVD dispersivo (Viscoat) para manter câmara
Reduzir fluxo e vácuo da facoemulsificação
Monitorar profundidade da câmara continuamente
Ter CTR disponível — maior risco de facodonese

Cálculo de IOL

Biometria com SS-OCT (ARGOS) — preferível a ultrassom
Fórmulas de 5ª geração (Kane, EVO 2.0)
Atenção ao comprimento axial — pode ter mudado após cirurgia retiniana
Considerar silicone residual na câmara posterior

5. Subluxação de Cristalino — CTR, Cionni e Yamane

A subluxação pode ser congênita (Marfan, homocistinúria) ou adquirida (trauma, PXF avançada). A decisão entre CTR padrão, Cionni suturado e técnica de Yamane depende do grau de diálise e da presença de cápsula posterior íntegra.

TécnicaIndicaçãoVantagemLimitação
CTR padrãoDiálise &lt;3h, zonular funcionalSimples, sem suturaNão ancora à esclera
Cionni (suturado)Diálise 3–6h, cápsula íntegraAncora à esclera, estávelTécnica mais complexa, fio pode erosionar
Yamane (flange)Afacia, sem cápsula posteriorSem sutura, sem fio expostoCurva de aprendizado, IOL específica
Glued IOLAfacia, sem cápsulaSem suturaRisco de descolamento de retina

Referências

  1. Chang DF, Campbell JR. Intraoperative floppy iris syndrome associated with tamsulosin. J Cataract Refract Surg. 2005.
  2. Morcher GmbH. Capsular tension rings — technical specifications. 2022.
  3. Yamane S et al. Flanged intrascleral intraocular lens fixation with double-needle technique. Ophthalmology. 2017.
  4. Gimbel HV, Sun R. Argentinian flag sign. J Cataract Refract Surg. 2002.
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